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"Gerenciar escassez na saúde tem limite", diz ex-presidente da Anvisa

"Gerenciar escassez na saúde tem limite", diz ex-presidente da Anvisa

Para Gonzalo Vecina Neto, um salto de qualidade no sistema de saúde brasileiro só será possível com crescimento econômico

GRAZIELE OLIVEIRA
19/10/2015 - 09h11 - Atualizado 20/10/2015 10h51

Momentos de crise exigem que se administre melhor os recursos à disposição. A regra vale para todos – governo, organizações, famílias e cidadãos. Contudo, para o médico Gonzalo Vecina Neto, ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), temos pouco a extrair do atual sistema de saúde, mesmo com melhor administração. Vecina Neto chefiou a Anvisa entre 1999 e 2003, no governo Fernando Henrique Cardoso. Ele acha que melhorias importantes no atendimento só poderão ser feitas quando houver novamente crescimento econômico, o que eleva a arrecadação e o poder de investimento do governo. No momento, não há expectativa de crescimento para os próximos anos. Vecina, que atualmente é Superintendente do Hospital Sírio Libanês, afirma que a melhor gestão é fundamental, mas apenas para manter o sistema funcionando.

Gonzalo Vecina Neto (Foto: Pedro Ribas/ANPr)

ÉPOCA - No modelo francês, a saúde pública funciona, mas não se propõe a fazer tudo. No modelo japonês, governo e cidadão dividem o gasto ao pagar pelo atendimento na rede privada. No Brasil, o sistema de saúde público se propõe a fazer tudo, e isso está além da capacidade dele. Na opinião do senhor, qual deve ser o caminho para o sistema de saúde no país?
Gonzalo Vecina Neto - É o crescimento econômico. Nosso problema é o (baixo) PIB per capita. O PIB per capita desses países que você citou é quatro vezes superior ao do Brasil. Se tivéssemos um pibão como eles têm, não sofreríamos desses problemas. Nosso PIB é 12 mil dólares per capita e o desses países é superior a 35 mil dólares per capita. Não chegamos a crescer o suficiente para ter mais recursos. Temos um problema de modelo? Temos. Temos um problema de gestão e temos de aumentar a eficiência do sistema. Mas gerenciar escassez tem limite. Falta, principalmente, financiamento.

ÉPOCA - Há algum modelo exemplar em país em desenvolvimento, como o Brasil?

Vecina - Pegue os países aqui em volta, Chile, Argentina, Uruguai. Qual deles tem um sistema com muito menos reclamação que o nosso? Ou semelhante a esses que você menciona? Nenhum deles tem. Esses países desenvolvidos resolveram os sistemas deles – as populações envelheceram e eles deram respostas ao envelhecimento. Nós estamos envelhecendo também, mas mal começamos a pensar em respostas para isso. O que gastamos com saúde é uma miséria. Todos (setores público e privado) gastam pouco, e o setor público, menos ainda. Na conta por pessoa atendida, o setor privado gasta o dobro do setor público. O setor privado, para atender a 50 milhões de brasileiros, gastou ano passado R$ 100 bilhões. O setor público, para atender aos outros 150 milhões de brasileiros, gastou R$ 200 bilhões. É desproporcional. Além disso, o setor público ainda teve de atender todos os transplantes e medicamentos de alto custo para as pacientes do setor privado (há pacientes que, mesmo com plano de saúde, procuram o SUS, por questões variadas como prazo de atendimento, equipamentos para o atendimento ou por simples ignorância de que o plano poderia atendê-los).

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ÉPOCA - Mas crescimento econômico não é opção nos próximos anos. O que poderia ser feito para melhorar o sistema de saúde no Brasil?
Vecina - Nós temos que melhorar o modelo e a gestão. São duas coisas que dá para mexer a fim de aumentar a eficiência. Temos de aumentar a garantia de acesso por meio da regulação. Mas ninguém poderia mais simplesmente ir a um especialista. Todo mundo que fosse fazer um exame caro teria de entrar em protocolo. Você não deveria poder fazer um exame se não houvesse necessidade de fazê-lo. E quem decidiria se o exame é necessário ou não, não seria obrigatoriamente o médico. A decisão dependeria da evidência existente em relação àquele estado patológico e a experiência médica acumulada.

ÉPOCA - Isso não torna o sistema muito burocrático?

Vecina - Não é burocratização. Hoje, temos um sucesso imenso no tratamento da aids no Brasil. A iniciativa privada não coloca um tostão, graças à existência de protocolos. Quem fez os protocolos? As sociedades médicas, sob a coordenação do Ministério da Saúde.

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ÉPOCA - Que tipo de procedimento ou situação poderia se enquadrar nesse sistema?
Vecina - Todas! Tratamento de câncer, pressão alta, diabetes... tudo pode ser resolvido com medicina baseada em evidência, protocolo, gestão de doença. Genericamente, a gente chama esse conjunto de coisas de gestão da clinica. Mas, além de melhorar o modelo de assistência a saúde, temos de melhorar nossa capacidade de gestão administrativa – as outras coisas que fazem parte do sistema de saúde mas não são assistenciais. Temos de ser mais produtivos na administração do sistema. Qualquer país que tenha um bom sistema de saúde tem um bom nível de eficiência na gestão dos recursos à disposição da sociedade. O modelo atual não tem de ser desconstruído. Ele está em um processo positivo de construção. O desenho do sistema é muito bom. Precisamos nos adaptar a uma nova carga de doenças, melhorar o financiamento e a capacidade de gestão.








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