As 46 mortes do Morro do Bumba, tragédia que completa oito anos amanhã, ainda não ensinaram a lição à Niterói: a cidade segue convivendo com moradores em situação de risco. Esse é o caso dos vizinhos Flávio Nogueira, de 44 anos, e Marcelo Rosa, 32. Eles vivem no alto do Morro da Chácara, no Centro da cidade — de frente para eles, estão, lá embaixo, a Câmara dos Vereadores e a Baía Guanabara.
— Um paliativo não adianta. O problema está no solo, que está oco — diz Marcelo.
A Defesa Civil interditou, em janeiro, as duas casas, mas as famílias seguem no local.
Casa está perto de desabar Foto: Marcelo Theobald / Agência O Globo
“A área não é recomendada para moradia, salvo se adotadas medidas com finalidade de contenção/ estabilização de encosta”, diz o laudo.
A cidade de Niterói não tem um levantamento atualizado de quantas pessoas estão em situação de risco. A prefeitura contratou uma empresa em 2015 para fazer o mapeamento. O trabalho deveria ter sido realizado até fevereiro de 2017. No entanto, foi interrompido quatro vezes. O gabinete do deputado estadual Flávio Serafini (Psol)chegou a enviar a questão ao Ministério Público. A prefeitura informou que o projeto ainda está em fase de conclusão.
O especialista em recursos hídricos Elson Nascimento, professor do Departamento de Engenharia Civil da UFF, afirmou que ainda não vê, desde a tragédia do Morro do Bumba, um investimento “significativo” em prevenção.
— Prevenção é investimento em dragagem e estabilidade, além de manutenção. Nesse mesmo período, a cidade construiu o túnel do Cafubá, por exemplo (que faz parte de um corredor de ônibus no valor total de R$ 420 milhões). E não fez nada desse tamanho na área de prevenção dos deslizamentos. O que tem sido feito são as medidas emergências, que também são necessárias, como as sirenes e os pluviômetros — diz o especialista.
Morro do Bumba desabou em abril de 2010 Foto: Márcia Foletto / 08.04.2010
Prefeitura: há obras
A Prefeitura de Niterói diz que já realizou mais de 50 obras de contenção na cidade. Em nota, informou que o investimento é de R$ 150 milhões de obras realizadas, em execução e em processo licitatório.
Fila
Nos próximos meses, deverão ser iniciadas as obras no Morro do Arroz, no Centro; em Santa Bárbara e na Jonathas Botelho, no Cubango.
Sirenes
Atualmente, Niterói possui 30 sirenes de alerta para desastres naturais, em 25 pontos da cidade. Em setembro de 2016, a Prefeitura de Niterói assumiu a manutenção do sistema após o governo estadual informar que não poderia mais arcar com os custos do serviço, que não ficou sem funcionar na cidade.
Tragédia
O local onde existe o Morro do Bumba foi um lixão de 1970 até 1986. Na chuva de 2010, 256 pessoas foram mortas em todo o estado.
Metade aguarda casas
O presidente da Associação de Vítimas do Morro do Bumba, Francisco Carlos Ferreira de Souza, afirmou que somente 1.500 famílias receberam casa para morar das 3.200 que estavam na lista depois da tragédia, em 2010.
O restante dos moradores recebe aluguel social, de R$ 400. Porém, famílias alegam que esse dinheiro não consegue arcar com os custos de uma casa numa área sem ser, novamente, em local de risco.
Uma parte dos moradores do Bumba, no entanto, que recebeu casa não teve os problemas de moradia resolvidos. O Condomínio Zilda Arns, do Minha Casa, Minha Vida, foi o destino de boa parte dos desabrigados do Bumba. O local foi inaugurado em 2015, mas apresenta problemas estruturais desde antes de ficar pronto: um dos blocos chegou a ser implodido porque rachara.
Um laudo feito pela Defesa Civil, em 2017, diz que não há risco de desabamento, mas que o condomínio não tem condição de ser habitado por riscos na rede elétrica.
Oito anos depois de tragédia no Bumba, Niterói ainda tem casas em áreas de risco
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